40 anos 40 imagens

Não me canso de referir que as imagens são a “bengala” da nossa memória. Com a aproximação do meu 40º aniversário decidi vasculhar as montanhas de fotografias do espólio familiar e encontrar uma para cada ano da minha existência física. Não foi tarefa fácil, sou a mais nova de três irmãos, e se os meus irmãos têm centenas de fotografias dos seus primeiros anos o mesmo não se passa comigo.
Nasci no dia 8 de setembro de 1974, na capital de Moçambique, para mim será sempre Lourenço Marques, para os outros Maputo. O meu nascimento foi antecipado pelos acontecimentos de dia 7 de setembro, a primeira vez que se ouviram tiros na capital africana. A minha mãe, como muitas outras grávidas em final de tempo transformaram os hospitais numa espécie de “hora de ponta” no dia 8, de tal forma que quando nasci a minha mãe ainda envergava o vestido, teve apenas tempo de pedir às enfermeiras que lhe tirassem as sandálias.

A angústia de um regresso forçosamente antecipado, o “meter a vida num caixote” e enviar para Portugal fez com que o meu pai deixasse a sua canon esquecida na escrivaninha chinesa.

Comento muitas vezes com os meus clientes que o impacto das fotografias que fazem hoje cresce e aumenta proporcionalmente à distância no tempo. É avassalador como uma imagem tem o poder de me fazer viajar no tempo e colocar-me no exato momento em que foi registada.

Não vivo de olhos postos no passado, gosto de apreciar o presente e pensar um bocadinho no futuro, mas juntando todos os milhares de milhões de instantes e fragmentos do passado, umas vezes a favor da corrente outras exatamente para contrariar o percurso, percebo que foram esses que me fizeram chegar até aqui, ser quem sou.

Pessoa feliz, mãe “im”perfeita, mulher amada, filha orgulhosa…