Celebração de um longo percurso

sessão glamour
A sessão Glamour da Ana Amorim permitiu-me celebrar a evolução do meu corpo e também me permitiu revelar o que ainda faltava evoluir na minha mente em termos de auto body shaming.

Quando a Ana me pediu, na consulta de guarda roupa, para dizer a parte do meu corpo que eu mais gostava, por mais que pensasse não me conseguia lembrar de algo que gostasse em mim fisicamente sem ser o facto do meu corpo me ter permitido emagrecer e correr. “Os meus gémeos” disse, uma das partes que me permite correr, se os adorava pela beleza? Nem por isso. A pergunta da Ana foi um choque e ao mesmo tempo uma prova de que todo o meu trabalho de perder 20kg, ter começado a correr, ter começado a usar vestidos acima do joelho pela primeira vez ou não ter problemas de usar roupa justa, todo esse trabalho ainda estava incompleto. Eu, que tinha imensos complexos desde a primária por todas as vezes que fui chamada de “gorda” (nem o era na altura), emagreci. Comecei a correr e continuei a correr mesmo depois de lesões que me obrigaram a parar, passei a adorar a máquina que o meu corpo é. Sentia-me super bem, feliz, até me senti na disposição de ser fotografada para celebrar este percurso, mas não adorava o meu corpo pela beleza que ele possui, simplesmente pelo que ele me permitia fazer.

Depois do trabalho excelente da maquilhadora Rita Refoios, a Ana começa o seu trabalho de me colocar à vontade. Desdobra-se em indicações, sorri atrás da câmara. No meio da sessão diz-me algo “Tu tens noção que és uma mulher muito bonita?”. Durante a sessão senti-me livre de julgamentos, e isso permitiu-me, aos poucos, ouvir elogios e aceitá-los.

Após alguns dias a pensar sobre a minha falta de resposta sobre qual era a parte do meu corpo que eu mais gostava a Ana diz-me “As tuas fotografias estão prontas para a escolha, vais adorar”. Fiquei ansiosamente entusiasmada. Quando me vi pensei “Sou eu?”. O impacto de me ver aperaltada, em poses que me definem as curvas, foi um clique. Consegui olhar para as fotografias, abstrair-me de ser “eu” e ver uma mulher. Nunca procurei defeitos nos corpos das outras mulheres, nunca senti que precisasse disso para me sentir bem. Vi uma mulher mas não vi apenas uma mulher, vi alguém feliz, alguém confiante, alguém que eu abordaria para falar, vi uma “mulher bonita”. Senti que todas as dúvidas que eu tinha sobre o meu corpo físico se prendiam apenas e só com conceitos inadequados de moda e de beleza, conceitos impostos por uma indústria ou por um programa de fotografia que eu até sei usar. Passei de achar “olhos enormes” para “olhos grandes e bonitos”. Foi difícil escolher entre tantas fotografias que adorei. Sinto que a sessão da Ana Amorim foi uma celebração total de um longo percurso.

A todas/os os que lutam contra o excesso de peso (ou com a falta dele): vale a pena a luta. Alcancei num ano muito que nunca esperaria alcançar. Fiz várias corridas de 10km, duas meias maratonas e ganhei anos de vida (índice metabólico passou dos 40 para os 18 anos, tenho 27 anos atualmente). Tive cuidado com a alimentação mas como hambúrgueres em dias de festa e como chocolates quando posso fazer excessos. A vida é um equilíbrio. Vale a pena mudar hábitos menos bons e começar hábitos que nos levam onde queremos chegar ou que nos permitem ser o que queremos. Vale a pena ignorar julgamentos sobre quem somos ou o que fazemos porque apenas nós sabemos a razão de o fazermos. De nada adianta lançar extremismo ou generalizações sobre outros. Vale a pena cortar com o tóxico na nossa vida em todas as vertentes, comidas “rápidas” que não nutrem, pessoas que nos insultam porque somos gordos ou apenas porque somos nós não devem estar no nosso caminho de vida. Vale a pena largar tudo isto mesmo que haja alturas em que nos sintamos mais cansados de tanta mudança. Demore o tempo que demorar a mudar, se nunca começarem, é que não acontece nada. Procurem ser melhores do que vós “ontem”, nunca melhores do que alguém. Não somos melhores que ninguém porque agora corremos ou estamos magros, nem somos menos do que outros também. Todos têm a “sua luta”. Não julguem gratuitamente, entendam o esforço, entendam e incentivem bons hábitos ou então não interfiram. O esforço de alguém que não sabemos o percurso, deve ser respeitado. É preciso ter discernimento e bom senso em avaliar o outro ser que está perante nós (e isto é válido de uma forma ampla, magros, gordos, altos, baixos, são seres humanos todos).

Para concluir: seja correr, começar a caminhar, passear os cães, hidroginástica, nadar, bicicleta, aulas de dança, musculação, seja o que for, o corpo humano não foi feito para estar parado, por favor “mexam-se” e permitam-se ser verdadeiramente felizes.

Joana Vitório

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