Já vos disse que tenho o melhor trabalho do mundo?!

bebés recém-nascidos

Se já o fiz nunca é demais repeti-lo.

Fotografar um bebé nos primeiros dias de vida, sentir aqueles poucos quilos de ser-humano nos braços, vê-lo adormecer, a esboçar (dizem que) involuntários sorrisos, aspirar o cheiro caraterístico de bebé, ou de cremes para bebé, tanto faz… toda a gente sabe o que é cheiro a bebé. Aos que bebem biberão perco a vergonha e peço aos pais se posso ser eu a dar. Mudo fraldas, limpo bolsados, cocós e xixis muitas vezes marotices feitas nas minhas roupas.

Ser fotógrafa não chega para fotografar recém-nascidos. Ser mãe não chega para ser fotógrafa de recém-nascidos.
Nunca dobrei, enrosquei, enfaixei ou equilibrei a cabeça em cima dos braços às minhas filhas. Nunca lhes fiz massagens para as aliviar das cólicas, simplesmente não era capaz. Mas aprendi a fazer tudo isto para poder fazer aquilo que mais gosto, para registar os traços fisionómicos destes bebés.

Não imaginava (inocentemente) que o melhor trabalho do mundo também me podia trazer dor, tristeza, angústia, preocupação…

Podia mentir e dizer que me lembro de todos os bebés e de todas as histórias e de todas as sessões e de tudo e tudo e tudo, mas não é verdade. O meu cérebro escolhe aleatoriamente (para meu desespero às vezes) aquilo que quer guardar, não tenho qualquer controle sobre isso e pode acontecer que me lembre dos detalhes mais impensáveis de uma conversa durante uma sessão que fiz há 5 anos e não me consiga lembrar do nome do bebé que fotografei ontem. Acontece cruzar-me na rua com algum cliente e fico lívida por não me lembrar dos nomes e noutras situações sou eu que me lembro e os clientes quase não sabem quem eu sou. O facto do meu cérebro guardar informação como lhe apetece é um processo que ainda estou a aceitar.

Nós criamos laços de forma diferente com as pessoas. Lembro-me de dizer às minhas filhas quando estavam no jardim de infância e já tinham maturidade para perceber isto, quando vinham para casa com aqueles queixumes de que a outra não foi amiga e que já não eram amigas deste ou daquela, que não podemos ser todos amigos nem gostar todos uns dos outros. Isso não existe, no entanto devemos sempre tratar os outros com respeito e educação.

Já fotografei bebés que tinham estado hospitalizados, que foram hospitalizados, prematuros, bebés com cancro, bebés que soube mais tarde tinham nascido surdos, ou com nanismo. E até há pouco tempo achava que a situação mais delicada e dolorosa foi o não fotografar um bebé porque nasceu sem vida, mas o futuro tinha-me reservado a Carolina.

Este ano fiz parte de um projecto no instagram chamado #100daysproject que consiste em publicar algo durante 100 dias consecutivos. Cheia de trabalho sabia que não tinha como fazer algo novo todos os dias para publicar e então optei por publicar 100 fotografias das primeiras 100 meninas recém-nascidas que fotografei. Meninas porquê? Porque este ano não têm nascido muitas e então pareceu-me a escolha natural. Lá fui aos back-ups e escolhi uma fotografia de cada uma das primeiras 100 bebés, pela ordem que as fotografei. E a centésima, a última foi a Carolina.

Não foi de propósito, espero que não tenha sido obra do destino, porque eu nem tenho isso muito bem definido nas minhas crenças. Simplesmente aconteceu e eu até podia não saber de nada, porque a verdade é que soube muito recentemente que a Carolina faleceu aos 15 meses com uma doença raríssima.

E se eu fiquei de rastos, não consigo imaginar como é que se vive depois de um acontecimento destes.

Eu podia ter mudado a fotografia? Podia.
Podia não ter contado nada? Podia, ninguém ia saber.
Mas como diz a mãe da Carolina “eu sou mãe de duas crianças, não posso fazer de conta que a Carolina não existiu. A Carolina existiu e agora está na estrela”

E é isto. Tenho o melhor trabalho do mundo mas às vezes dói como eu não imaginava que pudesse ser possível.

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