2019 em resumo

Foi sem qualquer sombra de dúvida um ano muito diferente para mim, entre idas e vindas entre o Funchal e Lisboa, encontrar o equilíbrio entre a família e o trabalho tem sido um verdadeiro desafio. Sei que este não é bem um texto sobre como tudo é maravilhoso e cor-de-rosa, que é aquilo que toda a gente espera no Natal, felicidade e alegria a transbordar, mas é um resumo completamente honesto de alguém que adora o que faz e que não se imagina a fazer outra coisa, mesmo quando as coisas correm de forma diferente ao previsto.

Quando tomamos a decisão de vir por dois anos para a Ilha da Madeira não estava planeado ir a Lisboa trabalhar, mas depois os pedidos foram chegando e eu percebi que tinha muitas saudades de fazer aquilo que mais gosto, fotografar recém-nascidos. E as famílias e as grávidas. Fui pelo menos 12 vezes a Lisboa em 2019. Durante 8 meses com ataques de pânico, às custas de um voo e aterragem mais complicados no Porto. Em outubro voltei a voar para o Porto e a coisa voltou a não correr lá muito bem, portanto acho que os meus voos do Funchal para o Porto estão para já em stand-by.

até sempre Vanessa!

Refleti bastante sobre se contaria esta história. Já li histórias semelhantes contadas por outros fotógrafos e fico com o coração apertado, mas concluí que é uma forma de homenagear as pessoas que se cruzam comigo.
Quase todos os meus clientes, em especial os que dizem que não gostam de fotografias ou de se ver em fotografias, já me ouviram dizer que temos de existir em fotografias. Por nós, para nós, mas também para os que ficam depois de nós e é por isso que vou contar a história que se segue.
Em fevereiro a Vanessa enviou-me um e-mail a perguntar quando é que eu iria a Lisboa pois queria renovar as fotografias de família. Já era minha cliente desde 2015, quando fiz a sessão de recém-nascido da Inês, entretanto fizemos outra sessão por volta dos 2 anos. Na troca de mensagens para combinarmos o dia diz-me que está doente, com cancro da mama. A sessão marcada para dia 13 de março fica adiada para dia 12 de maio pois os valores das análises não recomendam que a Vanessa saia de casa. Dia 12 de maio chego cerca de 10 minutos antes da hora combinada ao Jardim da Estrela, espero e como a família não aparece, convêm fazer um parêntesis a explicar que há clientes que se atrasam e há clientes que nunca se atrasam e a Vanessa está no 2º grupo, telefono. Não atende. Espero mais 10 minutos e envio mensagem. Não tenho resposta. Espero mais 10 minutos e volto a telefonar. Nada.
Pela primeira vez em quase 9 anos como fotógrafa só quero que a Vanessa não tenha aparecido porque se esqueceu da sessão. Acabo por me ir embora. Passadas algumas horas recebo uma mensagem a explicar que foi internada de urgência no hospital e não teve como avisar-me atempadamente. Obviamente que todas as viagens seguintes enviei mensagens e e-mails. Nunca mais tive resposta.
Em setembro acabei as sessões que tinha marcadas e ainda tinha umas 4 horas até ir para o aeroporto, aproveitei para ir a pé até ao Arquivo Fotográfico Municipal ver uma exposição. Dou por mim a cruzar-me com a mãe da Vanessa, viro-me para ir atrás dela e fico petrificada durante um minuto a vê-la subir a rua, num misto de será que é ela será que não é, vou falar com ela ou não e decido que tenho de o fazer para saber o que está a acontecer.
"Olá boa tarde! É a mãe da Vanessa não é? Não sei se se lembra de mim, sou a Ana, a fotógrafa."
"Sou sim, oh Ana, desculpe, não a reconheci"
"Como é que está a Vanessa?"
"A Vanessa já não está cá."
Tinha falecido no dia a seguir a ter sido internada.
E ali ficamos. As duas. Abraçadas no meio da rua. A chorar.

o Outro de Mim

Entre as várias coisas que tenho descoberto pela ilha, uma das mais curiosas foi a quantidade de gémeos iguais/idênticos/monozigóticos que existe. Disse-me a minha cabeça que era A oportunidade de fazer nascer um projeto fotográfico sobre gémeos.
O primeiro par de gémeos foi o mais simples de conseguir. São amigos do Aires, cruzamo-nos numa festa de aniversário e eu pedi-lhes para serem a rampa de lançamento do projeto. Eles disseram logo que sim e entre as minhas idas e vindas a Lisboa lá conseguimos arranjar uma data para os fotografar.
O projeto vai avançando a conta-gotas. 3 retratos publicados,  2 fotografados,  1 agendado e 3 inscrições com muitas dificuldades em escolherem uma data para o retrato.

Flops & oportunidade

O calendário de recém-nascidos foi literalmente o flop do meu ano. Cheguei a outubro e ainda faltavam 5 inscrições de bebés para completar o calendário.
Todos os anos experimento novas sessões e serviços e nem todos resultam. Faz parte.
Nunca pensei que um projeto com recém-nascidos me fosse falhar. 1% desse projeto seria canalizado para compra de ninhos para as unidades de neonatologia juntamente com 1% das sessões de recém-nascidos. Já falei com a Associação XXS e será publicada uma nova lista de necessidades em 2020, assim sendo vou juntar o valor deste ano €61,47 ao do próximo ano para tornar o donativo mais redondinho.
Pergunto-me se terei confiado demasiado no meu know-how e no meu portefólio e descurado o facto de que não sendo madeirense não soube comunicar o projeto como deve ser?
Em contrapartida recebi o caloroso convite da Associação Olho.te que faz um trabalho de reabilitação incrível no bairro da Nazaré no Funchal para criar um conjunto de imagens que foram expostas para celebrar o dia da igualdade.

para 2020

Como já disse logo ao início foi um ano estranho. Estar com o coração e a cabeça entre duas cidades separadas por 1h25 de avião não foi pacífico enquanto fotógrafa, mãe e mulher. Já tenho algumas decisões e novidades para 2020. Neste momento posso partilhar duas delas:
1ª é que vou regressar mais cedo do que o previsto a Lisboa (em janeiro haverá informações concretas);
2ª voltei a possibilitar a compra de vouchers para descontar em sessões fotográficas. Sessões de família, grávida, casal e ou bebés em Lisboa, a sessão clássica de recém-nascido em Lisboa e para impressão de álbuns

Queria agradecer de coração a todos os meus queridos clientes, vocês são os melhores e fazem-me sentir uma sortuda por vos acompanhar fotograficamente na vossa vida. A todos os que me seguem e recomendam muito muito obrigada. Tenho muitas ideias para implementar em 2020 para mostrar a minha gratidão. Quero acreditar que o meu resumo do próximo ano será bem mais animado. Agora o momento é para estar com a família, cheirar a nuca às minhas crias e enchê-las de beijos e abraços enquanto elas me deixam.
Até breve!